terça-feira, 26 de novembro de 2019

Génesis Sumério - O Dilúvio de Ziusudra




Génesis de Eridu

O Génesis de Eridu é um texto sumério que trata dos mesmos temas que os famosos primeiros capítulos da Bíblia: a criação do Homem e um Grande Dilúvio. A acção principal da narrativa é a história de um herói, Ziusudra, que sobrevive a um Grande Dilúvio.

Já nos debruçámos sobre o Épico de Atrahasis e sobre o Épico de Gilgamesh (em que o herói chama-se Utnapishtin), ambos referindo um Grande Dilúvio tal como o Génesis de Eridu. Estes textos têm muito em comum. A referência à cidade de Shuruppak como centro da acção nas três narrativas não é coincidência, mas evidência de que são versões da mesma história escritas em épocas diferentes, sendo o Génesis de Eridu a mais antiga destas três versões mesopotâmicas.

Para além dos textos mesopotâmicos, o Génesis de Eridu inspirou também a narrativa bíblica do Dilúvio, e algumas fontes gregas e romanas. Beroso, o conhecido autor babilónico do século III AEC, escreveu, em grego, sobre o herói Ziusudra (Xisuthros).

Génesis de Eridu terá sido redigido na Suméria, a parte sul da antiga Babilónia. Foi encontrado numa tábua com escrita suméria cuneiforme do século XVII AEC, da qual apenas cerca de um terço do texto sobreviveu.

Devido ao elevado estado de degradação da tábua cuneiforme, o texto apresenta muitas lacunas. O texto original deveria começar com a criação do Homem, continuando com o estabelecimento da realeza e uma lista de cidades. Em seguida, vem uma lista dos governantes antediluvianos e a decisão suprema do deus Enlil de destruir a humanidade. A razão invocada pelo deus está em falta no texto degradado mas pode ser inferido a partir das versões posteriores de Atrahasis e Gilgamesh: o incómodo barulho produzido pelos homens.

Ziusudra

Ziusudra é rei de Shuruppak e vidente que, numa visão, testemunha o conselho dos deuses e a sua decisão, e entende que algo terrível está prestes a acontecer. Depois disso, o deus Enki, falando do outro lado de uma parede, explica a Ziusudra o que ele já entendeu.

O conselho de Enki, para construir um barco grande, deve ter sido mencionado, mas encontra-se em falta. A história continua com uma descrição do Dilúvio, que dura sete dias e noites. Depois de deixar a arca, Ziusudra sacrifica e encontra Utu, o deus do sol. O final da história é um discurso de Enki, e a apoteose de Ziusudra, que viverá para sempre no país mitológico de Dilmun, no extremo leste, onde Utu ergue-se.


O texto

A adaptação aqui do Génesis de Eridu foi feita a partir de uma tradução de Thorkild Jacobson. Começa após uma longa lacuna, na qual a criação do homem deve ter sido descrita.

[... criação do homem...] 
A Deusa Criadora (Nintur) pensa sobre a humanidade 
Nintur chamou a atenção:
"Pensemos na minha humanidade, quão esquecidos estão, e ao meu cuidado, as criaturas de Nintur. Que eu os traga de volta, que eu traga as pessoas de volta ao seu caminho.
Que eles venham e construam cidades e lugares de culto, para que eu possa me refrescar na sua sombra.
Que eles coloquem os tijolos para as cidades de culto em pontos puros, e que eles encontrem lugares para adivinhação em pontos puros!"
Ela deu instruções para a purificação, e como chorar pela clemência, as coisas que arrefecem a ira divina, [...] aperfeiçoou o serviço divino e as funções augustas, disse às regiões vizinhas: "Que eu institua a paz lá!"
Quando An, Enlil, Enki e Ninhursaga criaram as pessoas de cabeça escura, eles fizeram os pequenos animais que surgiram da terra e estes surgiram da terra em abundância e passaram a existir, como conveniente, gazelas, burros selvagens e bestas de quatro patas no deserto.
[...parte grande perdida; talvez uma história de uma tentativa fracassada de construir uma cidade...]

Criação da realeza 
[ ...] "Que eu o aconselhe, que eu o faça supervisionar o trabalho deles, que ele ensine a nação a segui-lo, fielmente, como gado!"
Quando o ceptro real descia do céu, a coroa augusta e o trono real já estavam descendo do céu, o rei exerceu regularmente em perfeição os augustos serviços e cargos divinos, e colocou os tijolos das cidades em locais puros.
Elas foram chamadas por nome e foram lhes atribuídas cestas de meio-alqueire.

As primeiras cidades 
A primeiro das cidades, Eridu, ela deu ao líder Nudimmud,
o segundo, Bad-Tibira, ela deu ao Príncipe e ao Sagrado,
O terceiro, Larak, ela deu a Pahilsag,
O quarto, Sippar, deu ao galante Utu,
O quinto, Shuruppak, ela deu a Ansud.
A essas cidades, que foram intituladas pelos nomes, foram atribuídas cestas de meio-alqueire, foram limpos os canais, revestidos de blocos de argila purpúrea seca ao vento, que conduziam a água.
A limpeza dos canais estabeleceu um crescimento abundante. 
[Parte grande perdida, na qual os reis antediluvianos devem ter sido mencionados. Trabalhando nos canais e nos campos, eles produziram tanto barulho, que o supremo deus Enlil persuadiu os outros deuses a destruir a humanidade.] 
Naquele dia, Nintur chorou sobre suas criaturas e a santa Inanna estava cheia de tristeza sobre o povo dela, mas Enki tomou conselho com seu próprio coração.
An, Enlil, Enki e Ninhursaga, os deuses do céu e da terra, juraram pelos nomes de An e Enlil.

Visão de Ziusudra 
Naquela época, Ziusudra era rei e sacerdote de purificação. Ele esculpiu, sendo um vidente, o deus da vertigem e ficou em admiração ao lado dele, redigindo seus desejos com humildade.
Enquanto ele permanecia lá regularmente, dia após dia, algo que não era um sonho aparecia: uma conversa, um juramento de juramentos pelo céu e pela terra, um toque de gargantas [juramento pela vida], e os deuses trazendo seus inimigos para Kiur.

Conselho de Enki 
E enquanto Ziusudra estava ali ao lado, continuou ouvindo:
"Volta-te para a parede à minha esquerda e escuta!
Deixa-me falar uma palavra no muro para que possas entender o que eu digo. Tu podes prestar atenção ao meu conselho! Pela nossa mão, uma enchente irá varrer as cidades das cestas de meio-alqueire e o país. A decisão, de que a humanidade deve ser destruída, foi feita. Um veredicto, um comando da assembleia, não pode ser revogado, nenhuma ordem de An e Enlil ficou conhecida por ter sido cancelada. Nunca o seu reinado, o seu termo, foi retirado; ...
Agora ... o que te tenho a dizer... "
[Lacuna; Enki ordena que Ziusudra construa a arca e carregue com pares de animais.]

O dilúvio 
Todos os ventos malignos, todos os ventos tormentosos se juntaram num só e, com eles, o Dilúvio varreu as cidades das cestas de meio-alqueire por sete dias e sete noites.
Depois do dilúvio ter varrido o país, depois que o vento maligno lançou o grande barco nas grandes águas, o sol saiu espalhando luz sobre o céu e a terra.

O sacrifício de Ziusudra 
Ziusudra então abriu uma janela no grande barco e o gentil Utu enviou sua luz para o interior do grande barco.
Ziusudra, o rei, subiu a Utu, e beijou o chão perante ele.
O rei sacrificou bois, foi pródigo com as ovelhas, com bolos de cevada, ... ele repartiu com ele ... o zimbro, a planta pura das montanhas, ele colocou no fogo...
[Lacuna; Enlil irado por encontrar sobreviventes, mas Enki explica-se] 

Fim do discurso de Enki 
"Tu aqui juraste pelo sopro da vida do céu, pelo sopro da vida da terra que ele realmente está aliado contigo; vocês lá, An e Enlil, juraram pelo sopro da vida do céu, o sopro da vida da terra, que ele está aliado com todos vocês. Ele desembarcará os pequenos animais que surgiram da terra!"

Recompensa de Ziusudra
O rei Ziusudra subiu perante de An e Enlil, beijando o chão;
An e Enlil, depois de homenageá-lo, concederam-lhe vida como a de um deus,
fizeram um sopro duradouro de vida, como o de um deus, descer para ele.
Naquele dia fizeram o rei Ziusudra, conservador dos pequenos animais e da semente da humanidade, ir viver para o leste sobre as montanhas de Dilmun.

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